
Por Eduardo Vaz
Um dia, viajando com um amigo também cristão, conversamos, dentre tantas coisas, sobre medicina e fé. No decorrer da conversa, percebi um ar meio discreto de oposição desse meu amigo quanto à medicina como método para solução de nossos problemas de saúde. A questão que ficou no ar era de ordem filosófico-teológica, e a meu ver carecia mais do que nossa mera questão de fé pessoal a priori, pois esse assunto atormenta muitos irmãos por falta de uma definição do que é ciência e o que ela é para a cosmovisão (visão de mundo) cristã em geral.
A prosa com esse amigo se desenrolou quando eu disse que milagres não são ocorrências normais, pois, se assim fosse, não se chamariam milagres. Um milagre só pode assim ser chamado quando, diante das técnicas à disposição, um caso é dado como insolúvel ou impossível. Por exemplo: Uma mulher ficar grávida sem receber em seu útero espermatozóide, ou, alguém que morreu, ressuscitar, ou, nos dias de hoje, alguém com AIDS ser submetido a exame e constatarem que a pessoa não tem mais o vírus, isso sim seria dado como milagres.
Creio, como cristão, que Deus opera ainda hoje milagres,e também pequenas interferências em nosso mundo, como forma de nos chamar para ele como filhos, e isso incluir pequenas curas necessárias em momentos onde não temos recursos. Vários são os testemunhos que podem ser contados para ilustrar o que estou dizendo. Antes de qualquer atitude a ser tomada, um cristão clama a DEUS. Mas como ver os recursos que temos a disposição como remédios, técnicas e mesmo a medicina? Você pode estar se perguntando: “Mas aonde você quer chegar com tudo isso?”
A questão é a seguinte: se Deus é todo poderoso e cura seus filhos, não necessitamos da medicina, nem de remédios e muitos menos de outras técnicas. Essa é a argumentação básica de muitos dentre nós que professam a fé em um Deus pessoal e onipotente.
É um tanto engraçado, mas será DEUS inimigo da ciência? Serão os remédios adversários de Deus? Eu pessoalmente não creio nessa divisão que muitos fazem.
O que é ciência? Como surgiu e para quê? Sente no seu banquinho e não se assuste com o que vou lhe dizer, mas a ciência como conhecemos hoje só passou a existir por causa da tradição cristã que entende que toda ordem natural foi criada, e, sendo assim, tem leis que operam. Isso que digo reconhece mais prontamente a influência do cristianismo na ciência. Na virada do século 19 para o 20, o cristianismo era a influência intelectual predominante na maior parte das áreas da vida e da cultura no Ocidente. A ciência moderna deu origem dentro dessa Cultura impregnada pela Fé Cristã, e não temos como negar que a Europa cristianizada — e nenhum outro lugar — tornou-se o berço da ciência moderna. Como diz muito bem Nancy Pearcey e Charles Thaxton em seu livro “A alma da ciência” (pag. 19): “Por meio do mais puro conhecimento pragmático e de regras práticas, várias culturas da antiguidade – desde os chineses até os árabes – produziram um nível de erudição e tecnologia maior que a Europa Medieval. E, no entanto, foi uma Europa cristianizada e não nessas culturas mais avançadas, que nasceu a ciência moderna como uma disciplina sistemática e autocorretiva.”
Não estou querendo dizer que somente o cristianismo contribuiu para isso, mas a força motriz, sem dúvida, foi a influência do cristianismo. Para se investigar são necessários alguns pressupostos acerca do mundo que estejam estabelecidos de antemão e organizados. Como diz Foster em “The Christian Doctrine of criation ande the rise of modern natural sciense” (1934): “Foi necessário que os pensadores ocidentais conferissem à natureza o caráter e os atributos que a tornaram objeto de estudo cientifico antes da instituição da ciência em si.” Era a máxima: a fé na possibilidade da ciência. A fé era baseada em certos padrões de pensamento, como, por exemplo, a legitimidade da natureza, e assim veio a ser a doutrinação do mundo como criação de Deus.
A Ciência é o estudo da natureza, e como tal necessita que o indivíduo atue em relação à ela. Nesse aspecto, a Bíblia fornece vários dos pressupostos necessários, como, por exemplo, ela diz que a natureza é real. Caso você ache que isso seja óbvio, pense que várias outras visões de mundo ignoram isso claramente. Boa parte do panteísmo acredita que coisas específicas são apenas manifestações do ser absoluto e infinito. O Hinduísmo ensina que o mundo dos objetos materiais é maya, ilusão. Já a doutrina cristã da criação, nos ensina que os objetos finitos possuem existência real, pois foram criados por Deus, sendo assim passível de estudo e conhecimento. Longe de querer mistificar a natureza, como algumas religiões fazem, a Bíblia ensina que a natureza é boa, mas não é um Deus, mas sim, uma boa dádiva concedida por Ele a nós, já as religiões místicas e animistas tratam a natureza como emanação do próprio Deus. Na concepção cristã, Deus não habita na natureza, Ele não é a personificação das forças naturais, e muito menos a alma do mundo; Ele é seu criador. E essa desdeificação foi hiper importante para a ciência, como disse muito bem o Químico Robert Boyle no século 17: “A tendência de considerar a natureza sagrada tem sido um impedimento desanimador para a ciência.” Com isso, o monoteísmo bíblico acabou com os deuses da natureza, dando à humanidade a liberdade de desfrutá-la e investigá-la sem medo, e só assim o mundo parou de ser um objeto de adoração para ser objeto de investigação e estudo.
Descrevi tudo isso acima com o intuito de mostrar a importância da visão de mundo cristã na vida da ciência em si, e como a mesma precisou ser impulsionada por uma força maior do que a onda vigente de sua época, que preconizava a idéia de que Deus era tudo e tudo era Deus, de que Deus estava na natureza, e era a natureza. Antes desse impulso cientifico, as pessoas não acreditavam que a natureza era racional ou ordenada por leis. A proposta contrária e revolucionária a isso veio dos princípios bíblicos. Alguns teólogos já argumentavam que a idéia de leis naturais não foi derivada da observação, mas sim, que veio antes da observação, originária da crença no Deus bíblico.
Eu poderia ficar aqui gastando todo meu tempo em descrever essa importância, mas com isso deixaria de lado meu real interesse. A idéia de Ciência, como o próprio nome diz, quer dizer: tomar ciência, conhecer. Se Deus criou um mundo ordenado e com leis, cabe ao homem apenas conhecer o que já de antemão está criado e assim o homem não cria, apenas conhece e usa do conhecimento.
Voltando ao caso da viajem com meu amigo, fico impressionado como a palavra ciência é vista nos meios cristãos de hoje como sinal de oposição a Deus. Alguns dos mais notáveis cientistas eram cristãos declarados, como Newton, para citar apenas um, e nem por isso deixavam de acreditar em Deus. Então qual veio a ser a mentira jogada no dito popular cristão que tem feito muitos irmãos sérios acreditarem nessa mentira?
Na Bíblia encontramos vários textos , onde Deus orienta seu povo a confiar nele de todo coração. Também encontramos vários textos onde somos levados a crer que alguns vão querer ser como Deus.
Com o passar do tempo, o conhecimento científico foi se alastrando, e se tornou exemplo de poder. O homem que antes era mais comedido começou agora a entender que manipulando o conhecimento ele teria algum poder. Foi assim que surgiram as grandes invenções que facilitariam de vez a vida humana na terra. Mas qual o problema disso tudo com a fé? Meu amigo de viagem via todo um problema, e eu fiquei ali estático querendo saber quais os pressupostos dele. Segundo ele, a medicina pode ser um empecilho ao exercício de fé e que ele sempre espera em Deus antes de levar ao médico ou ministrar algum medicamento. Eu pensei: “iiiiiiiiiiiiiiiiiiii, tô vendo aqui alguma incoerência lógica, porque, SE DEUS É TODO PODEROSO, ELE SEMPRE VAI NOS CURAR QUANDO PEDIRMOS (ORAÇÃO), E, CASO ELE NÃO CURE COM ORAÇÃO, NÃO É VONTADE DELE. Pensei bastante naquilo que meu amigo dizia e rebati. Creio que Deus pode curar com oração, e assim faz quando e como Ele quiser, mas se não vejo Deus curando frente a uma ordem natural que Ele criou , usando os estudos adquiridos por nós humanos, mas diante da permissão d’Ele, para que serve a ciência? Será a ciência um mal?
Apesar de esse irmão ter tido espaço para formular seu pensamento, vi nele uma fé limitada. Será necessária fé apenas quando se trata de orar? Fico feliz quando algum cientista mesmo não sendo cristão descobre algum medicamento novo para algumas doenças raras, mas, mesmo assim, isso não é um fim em si mesmo, afinal de contas, todos nós morreremos um dia. Mas posso imaginar outro irmãozinho com aquela doença rara dizer que Deus respondeu sua oração quando o cientista descobriu tal medicamento. Não seria isso um grande ato de fé e resposta de Deus via ciência?
Mas por que não vermos Deus atuando pelas mãos de um médico? Acredito piamente que uma coisa não anula a outra, e que a fé seja necessária em todos os casos onde são ministrados até mesmo medicamentos e cirurgias com ótimos médicos, pois o que nos garante a vida é o próprio Deus.
Talvez nosso medo deva ser outro, e não a ciência em si, pois, em si mesma, ela não é má, só se torna má quando o homem a usa para seus fins malignos herdados de Adão.
Hoje em dia muito tem sido dito em nome da ciência. Como na política e nas mídias, temos que tomar cuidado com o que ouvimos em nome da ciência. Tudo que nos é dito como científico tem a tendência de ter conotação de ser verdade, e, como não temos mecanismos de averiguar se tal afirmação é de fato uma verdade, temos que ser céticos e investigar. Podemos duvidar de tudo, e até digo que o melhor lugar para duvidar é nos meios acadêmicos. Em ciência cada paradigma deve sim levantar novos desafios e nada pode ser tão estático. Não sou adepto da teoria do D.I. (designer inteligente), mas que essa teoria trouxe, até certa forma, uma tentativa de criticar o Darwinismo, isso trouxe, e, de certa forma, isso é bom. Já li sobre criacionismo, já li sobre D.I., e, hoje em dia, tenho aceitado, sem preconceitos, de forma aberta, o conceito de evolução teísta. Não sou um evolucionista teórico, mas não vejo também nenhum problema em um Deus que quis nos colocar aqui via um processo de evolução, isso não destrona nem a Bíblia nem o caráter poderoso de meu Deus. Mas mesmo aqui se pode tirar conclusões esquisitas e precipitadas tanto à respeito da teoria evolucionista como do Eduardo Vaz que vos escreve.
Muita mentira já se falou sobre essa teoria, e boa parte dela escutei e li dentro da própria igreja. A igreja é uma comunidade de pessoas que acreditam umas nas outras e assim primam por não duvidar do que um irmão diz, sendo assim, corremos o risco de passar adiante algo que nem nós mesmos sabemos direito.
Para finalizar queria deixar uma questão, e você responda para si mesmo: se um dia nos for provado, ou por meio científico, claro, ou por meio do próprio Deus, que o mecanismo usado para criar as espécies foi a evolução, como você ficaria?
Espero aqui ter aberto os olhos de muitos, e dizer que tudo que Deus criou é bom. A ciência em si não é má. O homem de posse da ciência não é o criador dela nem das leis, e por isso pode manipulá-la para o mal. Deus é dono de tudo e está soberano sobre tudo, até mesmo sobre a oração e a medicina.
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